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Aula 8 – Reflexões Sobre a Arte do Retrato

Posted by Marcio Parente on 1 de Abril de 2015 in Avançado |

A ARTE DO RETRATO

Diego Velázquez (1599-1660) foi um dos melhores pintores retratistas de todos os tempos, e era chamado de “o pintor da verdade”, pois conseguia transmitir através da pintura a essência das coisas. Os bordados e minúcia dos trajes, os frisos e detalhes dos móveis, e todos os detalhes que ele incluía nos seus quadros, eram incorporados com tal maestria que seus retratos manifestavam a essência dos personagens que o serviam de modelo.

O exemplo do pintor da corte de Filipe IV foi e continua sendo o ideal de todos os artistas que se dedicam ao retrato. Ser pintores da verdade, daquela verdade íntima que é a própria essência da personalidade de cada modelo, nunca se trata apenas de reproduzir uma imagem idêntica a de uma foto. Quando conseguimos reporduzir com fidelidade num desenho os traços fisionômicos de um modelo, poderemos dizer que estamos no caminho certo para nos tornarmos seguidores dos grandes mestres, como Goya, Velazquez, Tiepolo e outros.

Cabeça de oriental, óleo sobre tela, 1755. Giambattista Tiepolo

Cabeça de oriental, óleo sobre tela, 1755. Giambattista Tiepolo

A história da arte está repleta de obras-mestras do retrato, por isso, é importante o interesse por esse aspecto da pintura, mesmo que apenas por meio de boas reproduções. A “cultura especializada” do artista é imprescindível, não só para satisfazer a curiosidade natural de toda pessoa culta, mas também para ajudá-lo a justificar a sua própria obra.

A infanta Maria, óleo sobre tela, 1630. Diego Velazquez

A infanta Maria, óleo sobre tela, 1630. Diego Velazquez

 

 O Rei Felipe IV, óleo sobre tela, 1632. Diego Velazquez

O Rei Felipe IV, óleo sobre tela, 1632. Diego Velazquez

A infanta Maria Luísa, óleo sobre tela, 1776. Francisco de Goya

A infanta Maria Luísa, óleo sobre tela, 1776. Francisco de Goya

 

Para fazer o retrato de um modelo vivo, o artista deve enfrentar o problema da composição que pode ser abordado por dois aspectos: o do enquadramento e o da pose. Enquadrar uma cabeça, mesmo que seja com o complemento do pescoço e dos ombros, não apresenta muitas dificuldades. Basta saber que:
Quando o modelo olha para frente, a cabeça deve estar perfeitamente centralizada segundo o eixo vertical do quadro (A).
Com o modelo de perfil ou em posição de três quartos, a cabeça deve permanecer descentralizada, de modo que haja um espaço em branco maior diante dos olhos (B e C).

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As dificuldades com a composição das figuras começam com o retrato de meio corpo, nele devemos levar em conta se iremos ou não, representar a cabeça com uma pequena inclinação, para um dos lados, para cima ou para baixo. Este aspecto da pose oferece mais dramaticidade e movimento ao retrato. Escolher a melhor posição de um modelo exige estudo prévio, e é importante que em um primeiro momento, o modelo assuma uma posição natural e espontânea para que o artista possa captar melhor suas características essenciais.

Ao lado, podemos ver numa sequência de esboços, alguns estudos sobre a composição de um retrato.
1- Mulher jovem sentada, com um dos braços apoiado no encosto da cadeira. Expressa certa sensualidade, mas a postura do modelo cria um vão sob o braço atraindo o olhar para a cadeira.
2- Mesmo diminuindo o vão, com o modelo se aproximando do encosto, ele ainda atrai o olhar para a cadeira.
3- Com o modelo numa postura mais natural, com as mãos no colo, o ritmo oval dos braços parece mais harmonioso e equilibrado, mas a trave do encosto atrapalha esse efeito. Por outro lado, o ombro direito, que se inclina na mesma direção da cabeça e a grande área de pano à frente das mãos ajudam o equilíbrio.
4- A figura preenche melhor o quadro. O ombro inclinado é o esquerdo, destacando o ritmo sugerido pelo pescoço. O oval formado pelos braços é mais sutil devido à nova posição do braço esquerdo. A cadeira desapareceu por completo, desse modo, nada desvia o olhar de quem contempla o desenho.

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RETRATOS COM LINHAS E TONS

Ao olhar para o rosto de uma pessoa, muitas vezes o que mais nos chama a atenção não é o formato, a estrutura ou as feições, porém sua expressão. E é justamente isso que torna a arte do retrato tão fascinante. Para exercê-la, você precisa não só reproduzir a forma, a cor, os traços fisionômicos, mas também captar e transmitir aspectos da personalidade do modelo. O desenho constitui uma técnica excelente para retratos. Combinando a fluidez do lápis com diferentes texturas de papel, você poderá obter excelentes resultados. Experimente, por exemplo, retratar um rosto jovem com traços suaves e ondulantes, sobre papel liso. Para um rosto enrugado, tente fazer traços mais curtos e fortes sobre papel de superfície mais áspera. Tenha sempre em mente, que o mais importante não é o tipo de traço que você escolhe, e sim a maneira como o executa.

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MODELAGEM COM TRAÇOS

 

No exemplo A, o rosto foi modelado com traços limpos e suaves. As duas manchas de tom acima do olho direito foram trabalhadas com traços inclinados, cuidadosamente angulados para parecerem arredondados. Na região de tom médio nos traços que modelam a maçã do rosto no lado sombreado, sob o olho, há diagonais delicadas; à medida que a face se afasta da luz, elas se curvam e escurecem.

MODELAGEM ESFUMADA

No desenho B, vemos outra maneira de indicar a forma, onde os traços são esfumados com a ponta dos dedos ou com um esfuminho de papel. Esfumando os traços largos e soltos, podemos criar tons suaves e aveludados. O esfumado não remove o desenho original, mas funde os traços, fazendo-os parecer manchas suaves.

 

MARCAS EM PAPEL PARA CARVÃO

A superfície rugosa do papel para carvão é perfeita para lápis, pois seu grão delicado soma-se aos traços do lápis para produzir uma textura vívida. No exemplo C, as marcas finas e grossas do lápis são suavizadas pela textura do papel: pequenos pontos de sua superfície branca transparecem até entre os tons mais escuros, dando vibração aos traços. Nesse papel pode-se captar pequenos detalhes, como cílios.

MARCAS EM PAPEL ÁSPERO

Em D, podemos ver o mesmo retrato feito em papel extremamente áspero e grafite em bastão, em vez de lápis. As marcas grossas e acinzentadas da grafite e a rugosidade do papel conjugam-se para fazer os traços parecerem irregulares. Realmente, eles são bem menos precisos que as marcas feitas a lápis em papel para carvão, e deixam transparecer grandes áreas de branco, porém o efeito global é muito mais ambicioso.

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Os ricos tons de pele de um modelo negro oferecem boa oportunidade para combinar traços de lápis com esfumado. No exemplo ao lado, foi usado um lápis 4B macio e uma folha de papel para carvão, cuja superfície delicadamente rugosa suaviza os traços e favorece os tons esfumados.

O mais importante que deve ser considerado em um desenho de retrato é a expressão do rosto. Ela carrega as emoções de uma pessoa. O modo como olha para algo, a disposição dos lábios, a aparência da testa são indicadores seguros de sua tristeza, alegria, irritação e tantos outros sentimentos.

Quando você se propor fazer um retrato, tenha em mente quais são os detalhes mais significativos do modelo para que a emoção possa transparecer através da expressão. Isso não é tarefa fácil, mas o exercício e a prática lhe darão, em pouco tempo, a sensibilidade para captar essas emoções.

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EXERCÍCIOS PROPOSTOS

Para praticar o desenho de retratos, é interessante utilizar a técnica do quadriculado para manter as proporções exatas do modelo. Até artistas experientes fazem uso deste recurso quando trabalham com retratos, pois a precisão das proporções exigida por esse tipo de desenho não permite variações. Um erro no tamanho do nariz, da boca ou mesmo a distância entre os olhos pode prejudicar todo o desenho descaracterizando a identidade do modelo. Tente reproduzir também retratos feitos por outros artistas. A prática com modelos vivos só deve ser considerada quando você já possuir algum domínio das técnicas anteriores. Não se precipite para não gerar frustrações.

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Outra maneira de praticar o desenho de retratos é escolher figuras em revistas, desde que tenha uma boa resolução de imagem para poder obter nitidez nos detalhes. Pessoas famosas também podem ser desenhadas, pois são mais fáceis de reconhecer os traços. Pratique bastante que, somente a prática pode ajudar a desenvolver suas habilidades na arte do retrato.

 

Agora que você já conhece os segredos do desenho de retrato, vamos para a Aula 9 – O que é escorço

 

 

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